A história dos quadrinhos por um olhar sociocultural

Antes de falar de quaisquer sentidos ou mensagens produzidas por histórias em quadrinhos ao longo do tempo, é preciso falar do próprio desenvolvimento deste produto ao longo dos anos.

Cravar precisamente um espaço e um tempo, assim como um inventor ou inventora, para os quadrinhos é extremamente difícil. Sabe-se que os primeiros quadrinhos começaram à aparecer nos Estados Unidos e na Europa, por volta de 1830. Assim, ao longo de todo o século XIX este produto cultural foi sendo aperfeiçoado até alcançar as suas características específicas próprias, consideradas como base desta arte.

Portanto, no inicio do século XX os quadrinhos já estavam definidos como uma arte que utiliza, majoritariamente, do  discurso icônico como ferramenta narrativa, sendo acompanhado por textos verbais para melhor desenvolvimento dos enredos. Com estas predefinições, o uso de cores, traços, intensidades, brilhos, sombras e enquadramentos se tornaram artifícios centrais na caracterização de personagens e no desenvolvimento da ação dos quadrinhos.

“Jornal de Nova Iorque; Domingo, 24 de outubro de 1897. | A CRIANÇA EM AMARELO TENTA JOGAR GOLFE.”

Uma vez que os instrumentos narrativos dos quadrinhos estavam estabelecidos, as produções em larga escala avançaram no começo do século XX, encontrando, nos Estados Unidos, o melhor mercado, tanto produtor quanto consumidor. Foi dentro da mídia estadunidense que os cartunistas encontram espaço para produzir, criando tiras publicadas diariamente nos jornais. O termo “comics” é originado graças ao tom cômico utilizado nas primeiras tirinhas, para satirizar a situação miserável vivida dentro dos cortiços nos EUA.

Foi na década de 30 que surgiu o termo “comics books” (revistas em quadrinhos). Este, se referia a um novo gênero de narrativas, responsável por tratar de enredos voltados para aventuras e menos cômicos, além de conquistar um número maior de leitores. Dentro desta nova temática foi que as duas maiores editoras americanas, DC Comics e Marvel Comics, se fortaleceram ao criar seus super heróis.

Neste primeiro momento, iniciado na década de 30, os quadrinhos viveram a sua chamada Era de Ouro, com o nascimento de diversos super heróis clássicos, como o Super-Homem (1938; DC), Batman (1939; DC), Tocha Humana (1939; Marvel), Capitão América (1941; Marvel) e Mulher Maravilha (1941; DC).

 

  • OS QUADRINHOS COMO EXTENSÕES DA SOCIEDADE
Capa do #1 da revista Capitão América, lançada em março de 1941. Para fazer uma propaganda contra o Nazismo, a edição traz o Capitão dando um soco em Hitler.

Assim como a literatura, o cinema e as artes plásticas, as histórias em quadrinhos estão sujeitos aos valores culturais, ao momento político e aos padrões sociais de sua época. Portanto, no período da Era de Ouro, a grande maioria das histórias produzidas tratavam de combates ao Nazismo (como a capa de Capitão América, ao lado), devido ao período de pré-segunda guerra, e os anos de conflito seguintes.

Com o fim da guerra em 1945, e o inicio da formação do contexto para a Guerra Fria, vemos um movimento de substituição na temática dos quadrinhos. Sai o combate ao Nazismo e entra em pauta a luta contra o Comunismo.

Por consequência, diversos personagens são remodelados, passando até mesmo por reformas editoriais, enquanto outros são criados para combater os comunistas. Assim, começa a chamada Era de Prata dos quadrinhos. Neste período, as HQs independentes passam por uma “promoção intelectual”, abordando assuntos mais profundos com reflexões quase que existencialistas, contrapondo o estilo cômico utilizado nos primeiros anos. Indo contra a tendência intelectual, tanto a DC quanto a Marvel mantiveram sua linha editorial mais conservadora, conquistando, mais ainda, o público estadunidense, consolidando o monopólio do mercado.

Chegados os anos 60, as correntes de contra cultura e o movimento hippie possibilitaram uma experimentação estética enorme, renovando as formas estilísticas utilizadas nos desenhos. Ainda neste cenário, os fortes movimentos de luta pelos direitos civis inspiraram Stan Lee (importante escritor e quadrinista da Marvel) a recriar todo o Universo da Marvel Comics, além de criar uma das maiores equipes da empresa, os X-Men.

Com a derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate, os universos dos super heróis passaram por mudanças profundas na década de 70. Heróis, antes representantes dos bons valores norte americanos, lutadores pelo lado da liberdade e democracia, como Capitão América, agora questionavam suas próprias ações, enquanto outros mais soturnos, como Wolverine, buscavam justiça e ordem por conta própria, devido a descrença no Estado e instituições oficiais.

 

  • GRAPHIC NOVELS E O EMPODERAMENTO DO MACHISMO
Capa nacional do quadrinho “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, lançado pela Panini Comics.

Passada mais uma década, surgem as “graphic novels”, direcionadas para um público mais adulto, abordando e apresentando heróis mais amargurados, sombrios e violentos do que nunca. Neste exemplo, temos a passagem de Frank Miller pela HQ do Batman, lançando o arco Cavaleiro das Trevas, uma das mais aclamadas HQs de todos os tempos. Assim, durante os anos 80, e entrando para os 90, estabelece-se um novo momento da indústria, a chamada Era de Bronze. Foi ainda na década de 90 que, graças ao enorme crescimento tecnológico na corrida armamentista, introduziram a colorização computadorizada na indústria, revolucionando a maneira de se fazer quadrinhos.

Com o entendimento da trajetória dos quadrinhos, e sua constante relação com os contextos sociais, torna-se possível, e importante, analisar as produções por uma perspectiva social. Por tanto, é necessário falar como as histórias em quadrinhos, de maneira geral, apresentaram em suas histórias produções machista de personagens.

No inicio do século XX, haviam dois universos distintos e bem delimitados para cada um dos sexos. O masculino, extremamente público; e o feminino, que se encontrava na máxima de uma vida privada e reclusa aos afazeres domésticos.

Contudo, na primeira metade do século as mulheres passaram por um importante momento de saída da vida domestica e introdução ao mercado de trabalho, e até mesmo participação militar. Esse primeiro momento, foi impulsionado pela necessidade de mulheres nas indústrias e fábricas, graças a relocação dos homens para os exércitos nas duas grandes guerras que assolaram o planeta. É importante dizer que mesmo com essa conquista inicial, as mulheres ainda eram vistas de forma inferior ao homem, recebendo, por exemplo, salários muito mais baixos do que os profissionais masculinos.

É neste conjuntura que nasce a primeira grande super heroína, a Mulher-Maravilha, em 1941.

 

  • O SEXISMO NOS QUADRINHOS

Criada pelo psicologo William Moulton Marston, a Amazona causou grandes repercussões em uma sociedade cheia de tabus, em que homens e mulheres possuíam papéis sociais definidos e diametralmente opostos. A personagem transmitia de maneira clara pensamentos incentivadores a luta e conquista social da mulher, passando mensagens que incentivavam a sexo feminino a entender seu potencial e lutar por igualdade. Agora, a presença de uma personagem forte e determinada subvertia o arquétipo feminino na indústria de quadrinhos, que até então, era explorado com personagens feminina fracas e indefesas, exageradamente sensuais e provocativas.

Na esq.: A capa da edição #1 da Mulher Maravilha. Na dir.: A remodelação visual mais recente da personagem, ocorrida em jul/15.

Com o fim da segunda guerra e o retorno dos contingentes populacionais masculinos para suas terras natais, as vendas das revistas da personagem caíram abruptamente. Tal fenômeno foi a consequência de uma guinada conservadora que a sociedade passou como um todo, realocando a mulher para sua abominável e conservadora posição subordinada.

A partir da década de 60, com as transgressões do movimento de contra cultura, as personagens femininas passaram por um boom criativo, aumentando o número de super heroínas nos universos de quadrinhos. Mesmo assim, as criações se limitaram, em sua grande maioria, a serem somente versões femininas dos heróis masculinos já consagrados. Mesmo que nos próximos 50 anos, chegando à atualidade, os movimentos feministas tenham conquistado diversos direitos civis, a indústria dos quadrinhos acompanhou, de forma controversa, as transformações.

Embora tenha ocorrido um grande aumento no número de super heroínas entre as personagens de Marvel e DC, estas continuavam por apresentar traços extremamente machistas, tanto nos designs quanto nas narrativas. A própria Mulher-Maravilha, ainda nos seus primeiros anos, passou por uma guinada conservadora em seus enredos.

Aquela heroína que lutava contra diversos inimigos sozinha, salvando grandes metrópoles, tornou-se dependente de seu par romântico, Steve Trevor, para, até mesmo, atravessar um rio, como mostra a capa de uma das edições publicadas (ao lado).

Além da heroína da DC, diversas outras figuras femininas tiveram destinos parecidos ao longo dos anos. Mesmo que em seus próprios arcos, personagens como Tempestade (X-Men), Mulher-Gato (Batman),  Lois Lane (Super-Homem), Patty Spivot (The Flash), Barbara Gordon (Batgirl) e Jean Grey (X-Men), necessitavam da ajuda de seus pares heroicos masculinos para a solução das tramas. Até mesmo as capas das revistas mostravam as personagens em segundo plano, fosse para o homem presente na trama, ou até mesmo os antagonistas da edição.

De maneira triste, o machismo nos quadrinhos não acontece somente nas narrativas, mas também, nos traços e linguagens não verbais. Sendo as imagens a principal ferramenta para se desenvolver as ações em uma HQ, estas se tornavam instrumentos para a sensualização e diminuição da mulher no universo fictício.

Ao longo dos anos, praticamente todas as personagens femininas apresentavam curvas exageradamente sedutoras, cores provocativas, e roupas nada práticas para as ações necessárias de uma super heroína. Tais representações perpetuavam um discurso machista de dominação da sexualidade feminina, e ainda, a representação dos ideais masculinos de corpo feminino.

Em 2007, por exemplo, Mary Jane Watson – esposa do Homem-Aranha nos quadrinhos – foi representada em uma figura de ação vestindo calça jeans justa e rasgada, com uma camisa transparente, enquanto se inclinava, com uma postura sexualmente provocativa, sobre um balde, para lavar a fantasia do herói. Em resposta aos diversos protestos femininos, o desenhista da estatueta, Adam Hughes tentou se explicar declarando que ” […] Mas olha o histórico dela, é assim que ela foi representada por anos, mesmo quando não estava fazendo trabalho caseiro”.

A declaração de Hughes demonstra a raiz do problema: o olhar masculino sobre as personagens. Devido a centralização da produção de quadrinhos nas mãos de roteiristas e cartunistas homens, as representações femininas sempre foram projetadas com o olhar e o imaginário masculino, sobre questões que o próprio homem não entende, como a sexualidade feminina, e até mesmo a maneira com que as mulheres se relacionam com o mundo. Se ao longo do século XX as heroínas haviam quebrado o arquétipo de donzela em perigo, cabia a indústria dos quadrinhos dar representações dignas as personagens, pelas mãos e cabeças de mulheres.

Agora, nos anos 2000, o mercado dá indícios de que finalmente entendeu o poder feminino nos quadrinhos. Em Maio deste ano foi publicada a primeira edição de uma série, que dura até hoje, de uma formação dos Vingadores formada somente por mulheres. A chamada A-Force, não só apresenta grandes heroínas como a Mulher-Hulk (que também tem uma HQ solo muito boa), mas também é escrita por Gwendolyn Willow Wilson e Marguerite Bennett, duas grandes novas roteiristas da Marvel.

A primeira, inclusive, é a uma das escritoras de uma das HQs recentes da Marvel mais vendida, a Capitã Marvel. Tratando de uma heroína mais jovem, Kamala Khan (na imagem abaixo) é a primeira personagem muçulmana a ser protagonista de uma revistinha, conquistado grande número de fãs, principalmente de jovens leitoras. Ainda, a outra roteirista de Capitã, Sana Amanat, é nada mais nada menos que responsável por escrever as histórias do novo Homem-Aranha, Miles Morales.

Nos balões: “Esse cara acha que ele pode nos ameaçar onde vivemos? A Capitã Marvel tem uma mensagem para ele… Essa é a Jersey City. Nos falamos alto, andamos rápido, e nós não aceitamos desrespeito. Não se atreva.”

Outras duas personagens femininas que tem ido muito bem nos quadrinhos são a Batgirl, pela DC, e a Thor, pela concorrente. A heroína da DC possui uma roupa moderna, feita por ela mesma, e não só precisa salvar Gotham City, como conseguir superar a crise existencial adolescente. Totalmente diferente, a deusa da Marvel usa da força bruta para a resolução das questões. Depois que o Filho de Odin deixa de ser digno do uso do martelo Mjölnir, uma mulher desconhecida passa a utilizar a arma e seus poderes, transformando o símbolo do Thor, em um símbolo feminino.

Na esq.: A capa da edição #35 da Batgirl. Na dir.: Uma imagem promocional de Thor, agora mulher.

Atualmente, ambas as empresas tem tentado corrigir o sexismo existente no mercado de quadrinhos. A Marvel, por exemplo, possui, até o começo do próximo ano, um total de 17 HQs estreladas por personagens femininas.

Finalmente, as produções parecem caminhar em um caminho mais igualitário, menos machista e retrogrado, criando grandes histórias não só para os quadrinhos e seus fãs, independente de gêneros ou identidades sexuais, mas também para bases criativas para as tão populares adaptações cinematográficas de super heróis, e heroínas.

 

Nota do vics: Vale lembrar que a corrida pela representatividade das personagens femininas vem ganhando força também fora dos quadrinhos. Com as adaptações das HQ para o cinema e tv, diversas super-heroinas estão ganhando ou ganharão um espaço diante às câmeras.

Na lista, já temos, por exemplo, a Viúva Negra, n’Os Vingadores, Gamora, n’Os Guardiões da Galáxia, e personagens como Tempestade, Vampira e Lince Negra, nos X-Men. O ano de 2015 ainda trará, para a Liga Solo do #TeamMarvel, Jessica Jones, que em novembro irá estrelar uma série de mesmo nome pela Netflix em parceria a Marvel Entertainment. Ainda há, é claro, as produções futuras, como um filme solo da Capitã Marvel previsto para 2019.

No #TeamDC, que está nos primeiros momentos de seu Universo Cinematográfico, teremos, em março de 2016, a Mulher Maravilha ganhando a sua primeira representação diante das telonas, no vindouro Batman vs Superman: A Origem da Justiça. A personagem também terá um filme solo, previsto para o ano de 2017. Na tv, quem terá uma série para si é a Supergirl, prima do Super-Homem, que estreia no próximo dia 26. Em equipes, ainda temos personagens como a Mulher Gato em Gotham, a Canário Negro em Arrow e a Mulher Gavião no vindouro Legends of Tomorrow.

Felizmente, a lista não só para de crescer, como também conta com outras personagens de ambos os universos.

Apaixonado por cinema, música, culinária e futebol. Excelente companhia para tomar uma cerveja e conversar sobre os assuntos citados. Metade Bruce Wayne, metade Peter Parker, mas 100% mineiro.

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